quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O ENEM, a Justiça e a imprensa ou: quem penaliza mais os alunos

Por Dalva Teodorescu

Interropmpemos nossas férias, porque é impossível ficar calada diante do absurdo Kafkaniano que a imprensa e a justiça estão transformando o erro de gabarito em algumas provas do ENEM.

No jornal da gazeta de terça feira, a apresentadora Maria Lídia virou dona Maria. Perguntei-me se a apresentadora estava lendo um texto editado pelo patrão ou se era sua opinião própria. Não é possível tamanha má fé.

Diante da dificuldade de admitir a importância que se tornou o Enem para a democratização do ensino no Brasil, a apresentadora preferiu fazer um daqueles sermões costumeiro. Dadeira de lição, desta vez Maria Lídia exagerou na dose, e sem constrangimento afirmou que o ENEM é um fracasso.

Maria Lídia seguia a velha mídia, que coordenadamente e unanimemente esbravejou para condenar o exame, por causa de um erro pontual.

A mídia endossou, sem avaliar com distanciamento, a atitude questionável de uma juíza do Ceará. Avaliação de distanciamento que foi feita por todos especialistas em educação e pelo presidente da OAB Ophir Cavalcante.

Claro que os alunos prejudicados têm o direito de reclamar. Não é nada agradável esse tipo de contratempo diante do estresse do exame. Mas o erro, que deve ser sim condenado, atingiu 0,003 três de alunos. Foram 2 mil alunos prejudicados entre três milhões de estudantes.

No seu programa na Band News, Richard Boechard igualmente desqualificou o exame sem concessão. Comparou com o exame da FUVEST que nunca tem problemas.

Tenho grande respeito pelo Boechard, mas desta vez ele foi muito rápido em seus comentários.

O exame da FUVEST está consolidado, existe há várias décadas. Outro argumento que a mídia tradicional não quer considerar é que o exame da FUVEST se refere á uma única faculdade, ele abarca somente os alunos que se inscrevem na USP, Universidade de São Paulo.

O ENEM é um exame que se realiza em todo território nacional. Não é a mesma logística. O ENEM seria mais bem comparado com o BAC francês, que é aplicado em toda a França.

O BAC francês é o exame que permite aos alunos sair do ciclo secundário e entrar no ciclo universitário. Foi criado por Émile Durkheim (1858 – 1917), no final do século XIX e ainda hoje é uma instituição de referência da educação francesa.

Todos os anos milhares de estudantes passam o seu BAC, muitos chegam atrasados e perdem o exame, lágrimas são derramadas e, com frequência, problema pontuais, como gabaritos trocados e perdas das provas, acontecem.

No BAC desse ano, exatamente, aconteceu de extraviar provas realizadas por alunos e os prejudicados tiveram que se submeter a novos exames.

A imprensa informa o ocorrido e só, não cria factóide. Os alunos e seus pais reclamam com razão, muitos querem sair de férias. Mas todo mundo sabe que aqueles alunos que foram prejudicados farão novas provas e pronto.

A Justiça não se mela de problemas dessa ordem, a imprensa não faz todo um alarde e a oposição não pede a cabeça do ministro da educação. Nem tampouco o ministro vai prestar conta no senado ou na televisão.

A reação da imprensa e da Procuradoria Geral da Justiça foi exagerada e ilustra o quanto ainda somos uma democracia em formação.

E mais inquietante, mostra a omnipresença da justiça em todos os fatos de sociedade. Será que cabe á justiça proibir a divulgação do gabarito do ENEM? Será que isso é sinal de uma democracia forte? Com certeza não. Tudo não precisa e não pode ser tratado como um assunto da Justiça.

Qual atitude prejudica mais a totalidade dos alunos? A do MEC que diz que os alunos prejudicados se submeterão a novas provas ou a justiça que está condenando a totalidade dos 3 milhões de alunos e de seus pais à incertezas da validade do exame ou da necessidade de fazer nova prova.

É essa a questão que uma imprensa séria e que se põe a serviço da população deve fazer.

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