sexta-feira, 10 de junho de 2011

Conferência Estadual - Reforma Política Já: o Mulheres de Fibra foi participar.

Por Daniela

Acabei de voltar da Assembléia Legislativa de SP onde aconteceu a Conferência Estadual da Comissão Especial da Reforma Política da Câmara dos Deputados, uma iniciativa da Frente Parlamentar Mista pela Reforma Política com Participação Popular.


A Frente, que já conta com a adesão de 182 deputados, 36 senadores e diversas associações da sociedade civil, é coordenada pela Deputada Federal Luiza Erundina e pelo Senador Rodrigo Rollemberg. Estabeleceu-se uma agenda para realizar encontros estaduais e ouvir os anseios e expectativas da sociedade civil organizada. Após duas tentativas frustradas de aprovação de reforma política no Congresso, a iniciativa deve ser comemorada e quem sabe assim, com a participação popular, os relatórios cheguem a um formato que será finalmente aprovado.

Todas as contribuições foram importantes, mas vamos ressaltar apenas algumas das que apoiamos, a maioria delas também foi mencionada como proposta da Frente Parlamentar Mista:
  • Não reduzir à reforma política - e seu debate - às questões eleitorais
  • Lutar pelo sistema proporcional com paridade de gênero
  • Financiamento público de campanha com fim do fundo partidário
  • Fidelidade partidária
  • Maior enfoque e criação de ferramentas e estratégias para promover uma democracia mais particiativa
  • Possibilitar maior exercício da soberania popular: plebiscitos e referendos para as questões de amplo interesse nacional e estratégico
Também destacamos a participação do representante do Movimento Negro Brasileiro (que pedimos perdão por não conseguir registrar seu nome) que estava coberto de razão ao lembrar que os 50, 7% da população brasileira, que são os afrodescendentes (IBGE, 2010), não estão devidamente representados no Congresso, assim como acontece com as mulheres, e que isso "não é apenas uma vergonha nacional, é uma vergonha perante o mundo. É urgente incluir a questão etnorracial no debate pela Reforma Política".


Também chamamos atenção, conforme frisado por Erundina e Ivan Valente, que a Fidelidade Partidária é um dos caminhos para o fortalecimento dos partidos no Brasil e que ela não deve apenas se dar do parlamentar para o partido, mas ser uma via de mão dupla: os partidos também têm de manter a coerência com seus programas para que seus políticos não sejam obrigados a apoiar alguma iniciativa que, a princípio, estaria fora do escopo e conteúdo programático do partido.

Outra proposta interessante levada por Ivan Valente foi, não apenas o financiamento público exclusivo, como também a criminalização - com pena de prisão - de doadores e receptores de investimento privado em eleições.

Lembramos, ainda, enquanto blogueiras e participantes do debate eleitoral, que uma das nossas maiores dificuldades era conversar sobre "democracia" com pessoas instruídas e esclarecidas. Uma das colocações que eu mais ouvia era: "democracia num país em que o voto é obrigatório? Você está de brincadeira comigo?". Realmente, o que eu podia dizer? Fazia meu melhor: "olha, muitas pessoas morreram e foram torturadas para que eu tenha agora o direito de votar, então eu me sinto no dever de votar sim, mas claro, o panorama ideal é que o voto seja um direito e não um dever."

Sendo assim, uma das bandeiras deste blog para a reforma política - e que não foi discutida nesta conferência - é o Fim do Voto Obrigatório no Brasil.

Como blogueiras progressistas acreditamos que seja preciso ampliar mais e mais a participação cidadã. Em primeiro lugar porque as pessoas não se sentem mais representadas nem pelos políticos/partidos, nem pela mídia e pela imprensa. Estas instituições, que deveriam ser os espaços do debate público por excelência estão por demais corrompidas para representarem de fato os interesses da população. Não é à toa que a cada dia mais e mais pessoas vão às ruas - e à esfera pública virtual - mostrar o que pensam, o que querem e o que não querem mais. E nós temos mesmo que fazer pressão para que esta reforma não se torne mais um instrumento de políticos lutando em causa própria e dos interesses econômicos que estão representando, com todo o apoio e "patrocínio" da velha mídia. Nós não podemos nos dar ao luxo de gastar mais de 7 bilhões para manter um congresso funcionando, pelo menos não da maneira como ele está funcionando agora.

Vamos participar, caro leitor. Vamos entrar neste debate público e fazer barulho. Vamos apoiar a Deputada Luiza Erundina, que nos dá provas sucessivas de que é possível votar em candidatos íntegros e realmente comprometidos com objetivos democráticos e nobres. Aproveito para registrar meu agradecimento e orgulho: estou sendo muito bem representada pela mulher de fibra em quem escolhi votar. Nem por isso vou deixar tudo em suas mãos, ao contrário, preciso ajudar a construir a base necessária para que ela tenha mais forças, possa lutar e ser bem sucedida em seu papel. Caro cidadão, nunca se esqueça de que a nossa participação não termina nas urnas.

Vamos em frente, ainda há muito o que se discutir, e que este processo possa acontecer de forma pacífica, que cada vez mais nossas instituições sejam sólidas e proporcionem condições para o fortalecimento da nossa democracia.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mais uma Mulher de Fibra na Casa Civil.

É com prazer, orgulho e satisfação que postamos o primeiro pronunciamento de Gleisi Hoffmann, mais uma mulher de fibra que agora assume a Casa Civil.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Os ventos mudaram, mas nós não mudamos

Por Zé Dirceu
Dica do Blog de Marcelo Souza

O cenário político do país agora é outro. Tanto a mídia, quanto a oposição mudaram. Agora, dizem que a presidenta, Dilma Rousseff, não é mais independente de Lula e do PT, imagem que foi cultivada durante os primeiros cinco meses do ano.


A interpretação da ordem do dia é de que Lula e o PT interferem no Governo, por mais absurda que seja, já que Dilma foi eleita pelo PT e Lula foi seu principal apoiador.

O balanço da gestão, tão promissor há duas semanas, passou a ser ruim. Uma votação que não tem viés partidário ou de Governo, a do Código Florestal, polêmica por definição, transformou-se em grande prova da fragilidade do Governo Dilma.

O PMDB, que antes era atacado e rejeitado como aliado pela mídia e pela oposição, agora é instado a se rebelar, romper com o Planalto ou ocupar seu lugar. A pergunta é: qual é esse lugar? Nas páginas dos jornais, é o de governar no lugar da presidenta e do PT.

Também no campo econômico, antes, tudo era uma maravilha, a presidenta era elogiada pela disposição em fazer um ajuste fiscal, ainda que se lançassem dúvidas quanto à capacidade de atingir o objetivo de economizar R$117,9 bilhões em 2011.

Os resultados apareceram: queda da inflação, superávit de 4,5% no ano (49% da meta prevista de ajuste em apenas quatro meses!), crescimento mantido acima de 4%, perspectiva de criação de mais de 2,5 milhões de empregos, manutenção de programas sociais e criação de novos programas, como a Rede Cegonha, o Pronatec, e intensificação da luta contra a pobreza.

Mas, de repente, num piscar de olhos, tudo fica errado.

Problemas normais na construção de uma grande hidroelétrica como Belo Monte transformam-se, junto com a votação do Código Florestal, em sinal de crise.

A gritaria também tem se dado a respeito do kit anti-homofobia e um livro do MEC, que reconhece o modo de falar popular, mas que recebeu enxurrada de críticas em sua maioria de pessoas que não leram o livro por inteiro.

Em todos esses casos, o Governo Dilma tomou decisões corretas, assim como nas diretrizes propostas ao Código Florestal. A mídia esperava que o governo retrocedesse em tudo e insistiu no cenário de crise. Mas que crise é essa?

Governar com uma coalizão ampla como a nossa, a maior já costurada na história do país; consolidar a aliança estratégica com o PMDB; fazer as reformas política e tributária; manter a economia em crescimento.

Definitivamente, não são tarefas fáceis e nem as faremos sem tensões, vitórias e derrotas, avanços e recuos. Esse é o jogo normal e previsto da política.

Mas, se analisarmos cada caso, veremos que seguimos no caminho certo.

A política do Banco Central mudou, bem como a política cambial, porque o cenário internacional já não é o mesmo. Fizemos o certo ao não aceitarmos a anistia e a legislação estadual no caso do Código Florestal. Mantivemos o crescimento sem descuidar da inflação e das contas públicas.

Está claro que acabou a lua de mel. E fica a certeza: a mídia e a oposição não mudaram.
Sua natureza e seu DNA continuam os mesmos. Nós, tampouco, mudamos. Estamos na rota certa.
A presidenta, Dilma Rousseff, tomou em suas mãos as rédeas das obras da Copa do Mundo-2014 e determinou a concessão dos aeroportos. Abriu corretamente um dialogo direto com o PMDB na pessoa de seu vice, Michel Temer, e seguramente vai superar os problemas normais da relação entre dois grandes partidos.
Além disso, a chefe do Governo vai reorganizar a relação política com o Congresso Nacional e com os partidos aliados, retomando a nossa agenda e não a da oposição.
Na pauta estão o combate à pobreza, a reforma tributária, a política industrial, melhoras no SUS (Sistema Único de Saúde) e manutenção do crescimento com redução da pobreza.

Sem se abalar com a gritaria da mídia e da oposição, que estão em seu papel. A nós, resta cumprir o nosso papel, que é o de governar, e bem.

José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

Carta dos Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro

Carta dos Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro

Somos jovens, somos não tão jovens. Somos homens e mulheres, meninas e meninos. Temos todas as cores, todas as religiões, diferentes crenças ideológicas, mas apenas um compromisso: liberdade com justiça social. Somos centenas e não baixamos a cabeça para ninguém. Somos os blogueiros progressistas do estado do Rio de Janeiro.


No atual estágio da luta de classes, a blogosfera é uma trincheira fundamental na defesa dos trabalhadores contra a selvageria e crueldade do capitalismo. Nossos blogs tornaram-se ferramentas de grande utilidade nas batalhas cotidianas contra as mentiras contadas e recontadas diariamente pela velha mídia golpista. Milhares de blogs nascem a cada dia, como flores anunciando a primavera. A cada embuste desferido pelos tradicionais meios de comunicação, ganha força o ativismo nas redes sociais, temperado no fogo da luta!

Como na bela canção de Chico Science, percebemos que “nos organizando podemos desorganizar”. Seguiremos nessa toada enquanto a ditadura da mídia prosseguir obstruindo um debate político mais livre. Depois disso, outras frentes de batalha virão, porque a luta pela justiça social é eterna.

Nos dias 6 a 8 de maio deste ano, realizamos o I Encontro Estadual de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro. Com a presença de mais de 200 blogueiros de todo o estado (e vários de outras regiões do país) trocamos experiências, acumulamos debate, confraternizamo-nos alegremente, manifestamo-nos corajosamente em frente à sede da Rádio CBN - a rádio que troca a notícia –, e aprovamos a criação da Associação de Blogueiros do Estado do Rio de Janeiro (ABERJ).

Se você é blogueiro ou simpatizante da blogosfera e se indigna com a opressão midiática, então você é nosso companheiro.

Blogueiros Progressistas de todo o mundo, uni-vos!

Entre as propostas aprovadas na assembleia final do I Encontro Estadual de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro estão:

- Apoio a PEC da Banda Larga;
- Defesa da neutralidade da rede;
- Luta pela aprovação do Conselho Estadual de Comunicação;
- Criação do Marco regulatório da comunicação;
- Pela simplificação da regularização das rádios comunitárias;
- Criação da "Associação dos Blogueiros do estado do Rio de Janeiro - ABERJ";
- Criação de uma linha de publicidade pública para blogs;
- Defender a simplificação dos processos de legalização de rádios comunitários;
- Moção de solidariedade ao blogueiro Esmael Morais, do Paraná, perseguido pelo governo daquele estado;
- Moção de solidariedade ao blogueiro carioca Ricardo Gama, que sofreu um hediondo atentado, no Rio de Janeiro, provavelmente em virtude de suas denúncias políticas.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Jornalistas com deficit de letramento

Por Weden
do blog do Nassif


Diz o dito popular que médicos enterram seus erros. E os jornalistas os repercutem.

A falta de atenção e capacidade de compreensão do que diz o livro didático Por uma Vida Melhor, da editora Global, é indicativo de deficit de letramento entre jornalistas. Junte-se a problemas de leitura, interesses mercadológicos, ignorância científica, leviandade intelectual e oportunismo político.

São inúmeros os sintomas do deficit de letramento. Entre eles, dificuldade de relacionar textos (problemas com a intertextualidade), desatenção ao cotexto em que aparecem as sentenças e incapacidade de associar o texto ao contexto de enunciação - para não falar nas posições discursivas, mas isso é outra história.

O problema não é só encontrado no ensino básico. É comum que o deficit de letramento seja detectado também em outros níveis de escolaridade, mesmo entre aqueles que, em suas profissões, fazem largo uso da leitura e da escrita.

Linguistas já chamaram a atenção para o fato de que se estes jornalistas fossem submetidos ao PISA seriam reprovados.

Aqui a lista de jornalistas e intelectuais que precisam aprimorar sua leitura.

No caso deles, talvez não seja difícil.
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Clóvis Rossi (Folha de SP): atribuiu aos autores do livro "crimes linguisticos" e "argumentos delinquenciais". Fundamentou seus ataques a uma pequena passagem do livro. O capítulo não era tão grande para ele se abster da leitura. Uma das marcas do deficit de letramento é a incapacidade de fazer correlações cotextuais. Interpretou "demonstração linguistica" com "pregação linguística", o que não cabe a este ramo do saber.

Flávia Salme (IG): levou a escolas sua leitura equivocada do livro. Induziu alunos a se pronunciarem contra. No seu texto, confunde modalidade e registro com normas.

William Waack (Rede Globo): iniciou o programa Painel, da GloboNews, perguntando se é "certo ensinar errado". Tímido com a explicação de Maria Alice Setubal, professora convidada, pergunta :"Embarcamos numa furada?". Ela responde: "sim". Nem Afonso Romano o apoiou.

Mônica Waldvogel (Globo): a reportagem de abertura do programa Entre Aspas, por meio de um recorte descontextualizado do livro, induz os entrevistados a condenarem a obra, os autores e o MEC. Cala-se diante das intervenções de Cristóvão Tezza e Marcelino Freitas.

Jornalista do jornal O Globo (vários): as reportagens sobre o livro didático foram assinadas por vários jornalistas. Todos insistiram na tese - não confirmada - de que o livro contém "erros grosseiros de português".

Augusto Nunes (Veja): perseguiu a professora Heloísa Ramos, durante dias. A professora é consultora da revista Nova Escola, da própria Abril, a que serve o jornalista.

Reinaldo Azevedo (Veja): a partir de trechos soltos, confundiu demonstração linguistica com pregação política. Partidarizou o que é consenso no campo da linguistica internacional.

Merval Pereira (Globo): fez afirmações fora do escopo da obra: "o Ministério da Educação está estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros”. Não há passagem clara neste sentido no livro.

Carlos Alberto Sardenberg (Globo): chegou a afirmar que o livro defende o modo de falar do ex-presidente Lula. Não leu o livro.

A mea-culpa da Folha de São Paulo, no editorial "Os livro", não foi acompanhada do necessário pedido de desculpas aos autores da obra. A seu favor, deve-se frisar que o jornal publicou dois artigos que mostram que nem todos deixaram de se ater à obra para comentá-la. Ressalte-se aqui a honestidade intelectual de Hélio Schwartsman e de Thais Nicoleti de Camargo.

Quem mais criticou sem ler?

Marcos Vilaça (Presidente da Academia Brasileira de Letras). Caso gravíssimo. O presidente da instiuição responsável pela memória das letras no país sequer teve o cuidado de consultar a obra. Acreditou no que foi levado pelos jornalistas. Desacreditou a instituição.

Ruy Castro (Escritor). Ele não leu o livro e se indignou com o que não havia sido escrito na obra. O escritor vive da leitura de livros. Mas ele mesmo não deu o exemplo.

Evanildo Bechara (Gramático). Cometeu o erro mais grave de sua carreira acadêmica. Criticou autores sem ter lido o livro. Um gramático não pode desconhecer a necessidade de ler para emitir juízos.

Edgar Flexa Ribeiro (Educador). Ele também não leu o livro e emitiu opinião a partir de trechos descontextualizados. Envolvido com educação, deu um passo em falso e será cobrado por isso.

Cristóvão Buarque (Senador). Sem ler o livro, diz que a obra pode prejudicar alunos. Este é um caso bastante sintomático. Como sua bandeira é a Educação, poderia ter sido mais cuidadoso ou pelo menos ter lido o capítulo em que aparecem as citações da imprensa. Sem fundamentação na realidade do que estava escrito no livro, declarou: "Existe um risco de se criar duas formas de falar o português" (existem várias formas de falar português, até porque toda língua é constituída por dialetos, como fica claro nas diferenças entre o Português Europeu e o Português Brasileiro); "os estudantes da rede pública, ao adotar erros de concordância verbal como regra, não terão a menor chance de passar em um concurso" (o livro em nenhum momento diz isso); "Tem que se ter em mente uma questão fundamental: sotaque e regionalismos são uma coisa, a língua portuguesa é outra" (esta diferença é absurda do ponto de vista das ciências linguísticas").

Todos os personagens acima devem desculpas à professora Heloísa Ramos e à ONG Ação Educativa. Eles se deixaram levar pela cobertura da imprensa. Pode-se desculpá-los por isso, mas é bom que reflitam.

Considero que estamos diante de um novo caso Escola Base, e todos que não se retratarem terão ajudado a constituir um novo crime de imprensa.

A professora Heloísa Cerri Ramos foi atacada pelos blogs da Veja, que tentaram ridicularizá-la. Já a Ação Educativa, com 15 anos de existência, e inúmeros projetos de pesquisa no campo da educação*, além de ações como pontos de leitura, também foi caluniada sem direito á resposta.

Todos estes jornalistas e intelectuais citados apresentaram problemas graves de letramento. Recomenda-se que repensem o que disseram e tenham a humildade de consultar o capítulo, antes de emitir novas opiniões.

Além disso, um pedido de desculpas não faz mal a ninguém.
A educação brasileira agradece.
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* A ONG é responsável, junto com o Instituto Paulo Montenegro, pelo Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, pesquisa de acompanhamento permanente.

Diante dos problemas com os jornalistas, as estatísticas devem ter piorado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Até a Soninha Cerra ficou indignada!

Por Daniela




Achei o vídeo na Maria Frô, no artigo: "Soninha Francine, este governo é teu, por que a surpresa?!"

Precisa comentar?

Leituras indispensáveis

Por Daniela

Felizmente o debate que se instaurou sobre o livro "Por uma vida melhor" conseguiu transcender o senso comum e a tendência à estagnação que não raro se verifica em relação a diversos temas que precisariam ser profundamente debatidos em sociedade. Na minha opinião o fato reflete a maturidade dos pesquisadores e professores da área que se posicionaram, dos escritores que se manifestaram, bem como da população que mostrou por meio de seus comentários em inúmeros blogs e sites que entende muito bem todas as entrelinhas dos discursos-armadilhas da grande imprensa.

Indico algumas leituras abaixo que julgo indispensáveis para quem se interessou pelo tema. Após os links, transcrevo, na íntegra, a Nota de Repúdio da Abralin - Associação Brasileira de Linguística - contra a cobertura tendenciosa da imprensa, que encontrei no Nassif, conforme link também abaixo.

Aproveito para agradecer a todas as pessoas de fibra que comentaram, e ajudaram a divulgar, o texto do Mulheres de Fibra. Acredito que a blogosfera deu mais um passo importante em direção à expansão da democracia.

A próxima etapa, como ressaltou a nota da Abralin, seria debater as reais questões que colocam obstáculos ao ensino da língua materna. Segundo a Associação: "entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.". Talvez esse seja um bom momento para iniciar essa discussão. E então, qual é o tipo de Educação que o Brasil precisa? Quais são mesmo os maiores empecilhos para a melhoria do ensino no País?

Links - leituras indispensáveis:

De Marcos Bagno, "POLÊMICA OU IGNORÂNCIA? DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA" http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745

De Lívia Perozim, "FALSA QUESTÃO" http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/falsa-questao

De José de Souza Martins, "MESTIÇAGENS DA LÍNGUA PORTUGUESA", publicado no Aíás, Estadão (22.05.2011), e você pode ler no http://www.eagora.org.br/arquivo/mesticagens-da-lingua

No Blog do Mello entenda "Por que a Abril está soltando os cachorros em cima do Haddad com o livro 'Por uma vida melhor' " com o artigo de Alceu Nader, "AS EMRESAS NÃO TÊM IDEOLOGIA, TÊM NEGÓCIOS" http://blogdomello.blogspot.com/2011/05/por-que-abril-esta-soltando-os.html



Também com vídeo do programa Entre Aspas da Globo News, um artigo que está no Viomundo http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/livro-didatico-x-lingua-popular-escritores-riem-da-tese-da-velha-midia.html

Outra delícia de vídeo: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1512976-7823-CONVIDADOS+DEBATEM+SOBRE+AS+POLEMICAS+DA+LINGUA+PORTUGUESA,00.html

Em algum lugar li um texto maravilhoso do Professor Sírio Possenti, mas não consegui localizá-lo novamente, se alguém tiver notícias, por favor me avise.

Agora, a Nota da Abralin, que você também pode ler no Nassif:  http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/abralin-divulga-nota-de-repudio

Língua e ignorância


Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.

Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.

O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.

A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.

Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".

Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.

Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar". E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.

Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.

Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.

Maria José Foltran
Presidente da Abralin/Gestão UFPR 2009-2011